a hospedeira

Prólogo - Inserida Paulo Sergio A Hospedeira O nome do Curandeiro era Fords Águas Profundas. Como era uma alma, por natureza ele era inteiramente bom: compassivo, paciente, honesto, virtuoso e cheio de amor. A ansiedade era uma emoção incomum para Fords Águas Profundas. A irritação era ainda mais rara. Contudo, como Fords Águas Profundas vivia dentro de um corpo humano, às vezes era impossível escapar da irritação. E como os cochichos dos estudantes Curandeiristas rumorejassem no extremo da sala de operação, seus lábios se comprimiram numa linha apertada. A expressão ficava fora de lugar numa boca dada a sorrir com frequência. Darren, seu assistente habitual, viu a careta e deu um tapinha em seu ombro. — Eles só estão curiosos — disse baixinho. — Uma inserção não chega a ser exatamente um procedimento interessante ou desafiador. Qualquer alma pode realizá-la no meio da rua numa emergência. Nada há que eles aprenderão observando hoje. — Fords ficou surpreso ao ouvir o tom cortante deformando sua voz normalmente suave. — Eles nunca viram um humano adulto — disse Darren. Fords ergueu uma sobrancelha. — São cegos para os rostos uns dos outros? Não têm espelhos? — Você sabe o que eu quis dizer... um humano selvagem. Ainda sem alma. Um dos insurgentes. Fords olhou para o corpo inconsciente da jovem, deitado de bruços na mesa de operação. A compaixão encheu seu coração quando ele se lembrou de quanto aquele pobre corpo estava arrebentado quando os Buscadores o levaram para a instalação de Cura. Quanta dor ela devia ter sofrido... É claro, agora ela estava perfeita – completamente curada. Fords cuidara disso. — Ela se parece com qualquer um de nós — murmurou Fords para Darren. — Nós todos temos rosto humano. E quando acordar, ela também será uma de nós. — É fascinante para eles, só isso. — A alma que implantamos hoje merece mais respeito do que ter seu corpo hospedeiro observado desse jeito bobo. Ela já vai ter coisa demais com que lidar enquanto estiver se aclimatando. Não é justo fazê-la passar por isso. — E por isso ele não queria dizer os olhares tolos. Fords ouviu o tom cortante retornar à sua voz. Darren deu-lhe outro tapinha. — Vai dar tudo certo. Os Buscadores precisam de informação e... À palavra Buscadores, Fords lançou um olhar para Darren que só poderia ser descrito como um modo de encarar. Darren piscou, aturdido. — Sinto muito — desculpou-se Fords imediatamente. — Eu não queria reagir de forma tão negativa. É só que temo por essa alma. — Seus olhos se deslocaram para o criotanque sobre seu suporte ao lado da mesa. A luz era de um vermelho-escuro constante, o que indicava que o criotanque estava ocupado e em modo de hibernação. — Esta alma foi especialmente escolhida para a indicação — disse Darren para acalmá-lo. — Ela é excepcional entre os de nossa espécie... mais valente que a maioria. As vidas dela falam por si. Acho que se ofereceria voluntariamente, se fosse possível perguntar. — Quem dentre nós não se apresentaria voluntariamente quando solicitado a fazer algo em nome do bem maior? Mas será esse realmente o caso aqui? Estamos servindo ao bem maior com isso? A questão não é a disposição dela, mas o que é certo pedir a uma alma, qualquer que ela seja, que suporte. Os estudantes Curandeiristas também debatiam sobre a alma em hibernação. Fords podia ouvir os sussurros claramente; a voz deles se elevando, ficando mais alta à medida que se entusiasmavam. — Ela viveu em seis planetas. — Ouvi dizer que foram sete. — Eu soube que ela nunca viveu duas durações na mesma espécie hospedeira. — Isso é possível? — Ela foi quase tudo. Flor, Urso, Aranha... — Alga, Morcego... — Até mesmo Dragão! — Não acredito... não em sete planetas. — Pelo menos sete. Ela começou em Origem. — É mesmo? Origem? — Silêncio, por favor! — interrompeu Fords. — Se não forem capazes de observar profissionalmente e em silêncio, precisarei pedir que saiam. Envergonhados, os seis estudantes se calaram e se afastaram um pouco um do outro. — Vamos em frente com isso, Darren. Tudo estava preparado. Os remédios apropriados foram dispostos ao lado da humana. Seus cabelos escuros estavam presos sob o gorro cirúrgico, expondo o pescoço delgado. Profundamente sedada, ela inspirava e expirava devagar. A pele queimada de sol mal exibia uma marca que mostrasse seu... acidente. — Comece a sequência agora, por favor, Darren. O assistente grisalho, que já esperava ao lado do criotanque, a mão sobre o dial, removeu o pino de segurança e girou o botão para trás. A luz vermelha na parte superior do pequeno cilindro cinza começou a pulsar, piscando com mais rapidez a cada segundo, mudando de cor. Fords concentrou-se no corpo inconsciente. Introduziu, com movimentos curtos e precisos, o bisturi na pele à altura da base do crânio da paciente, e então aspergiu uma medicação que diminuiu o excesso de sangramento antes que ele aumentasse a fissura. Fords explorou delicadamente sob os músculos do pescoço, com cuidado para não machucá-los, expondo os ossos descorados no alto da coluna vertebral. — A alma está pronta, Fords — informou Darren. — Eu também. Traga-a. Fords sentiu Darren em seu cotovelo e soube, sem olhar, que seu assistente estaria preparado, a mão estendida e esperando; eles trabalhavam juntos havia muitos anos. Fords manteve a incisão aberta. — Mande-a para casa — sussurrou ele. A mão de Darren entrou no campo de visão, o brilho de prata de uma alma despertando na palma de sua mão em concha. Fords nunca viu uma alma exposta sem que ficasse impressionado com sua beleza. A alma resplandeceu com as luzes brilhantes da sala de operação, mais reluzente que o instrumento prateado que refletia em sua mão. Como uma fita viva, ela se contorceu e serpeou, espreguiçando-se, feliz por estar livre do criotanque. Delgadas e plumosas, suas conexões, quase mil delas, ondularam suavemente como cabelos prateados. Embora fossem todas encantadoras, essa pareceu particularmente graciosa aos olhos de Fords Águas Profundas. Ele não estava sozinho em sua reação. Ouviu o leve suspiro de Darren, escutou os murmúrios admirados dos estudantes. Delicadamente, Darren colocou a pequena criatura reluzente na abertura que Fords fizera no pescoço humano. A alma escorregou suavemente para dentro do espaço oferecido, entrelaçando-se na anatomia alienígena. Fords apreciou a habilidade com que ela tomou posse do novo lar. Suas conexões enroscaram-se apertadas ao redor dos centros nervosos, tomando seu lugar, algumas alongando-se e aprofundando-se em pontos que ele não podia ver, para baixo e para cima cérebro adentro, os nervos óticos, os canais auditivos. Ela era muito rápida, muito firme em seus movimentos. Logo, apenas um pequeno segmento de seu corpo reluzente era visível. — Muito bem — sussurrou ele, sabendo que ela não podia ouvi-lo. Era a humana quem tinha ouvidos, e ela ainda dormia profundamente. Era um gesto de rotina para concluir o trabalho. Ele limpou e tratou o ferimento, passou a pomada que vedava a incisão logo atrás da alma, em seguida aplicou o pó especial para prevenir cicatrizes sobre a linha deixada no pescoço. — Perfeito, como de praxe — disse o assistente, que, por alguma razão insondável para Fords, não mudara o nome de seu hospedeiro humano, Darren. Fords Águas Profundas deu um suspiro. — Lamento o trabalho de hoje. — Você só está cumprindo seu dever de Curandeiro. — Esta é uma dessas raras ocasiões em que curar gera um dano. Darren começou a limpar o equipamento. Ele pareceu não saber como responder. Fords estava atendendo a seu Chamado. Isso era suficiente para Darren. Mas não bastava para Fords Águas Profundas, que era um verdadeiro Curandeiro até o âmago de seu ser. Ele olhou fixa e ansiosamente para o corpo feminino, pacificado no sono, sabendo que aquela paz seria despedaçada assim que ela acordasse. Todo o horror do fim daquela jovem seria suportado pela alma inocente que ele acabara de pôr dentro dela. Ao se inclinar sobre a humana e sussurrar em seu ouvido, Fords desejou ardentemente que a alma dentro dela pudesse ouvi-lo. — Boa sorte, pequena peregrina, boa sorte. Como queria que você não precisasse disso...

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a hospedeira ,ja ja mando o livro completo aguardem....

Nosso planeta foi dominado por um inimigo que não pode ser detectado. Os humanos se tornaram hospedeiros dos invasores: suas mentes são extraídas, enquanto seus corpos permanecem intactos e prosseguem suas vidas aparentemente sem alteração. A maior parte da humanidade sucumbiu a tal processo. Quando Melanie, um dos humanos "selvagens" que ainda restam, é capturada, ela tem certeza de que será seu fim. Peregrina, a "alma" invasora designada para o corpo de Melanie, foi alertada sobre os desafios de viver dentro de um ser humano: as emoções irresistíveis, o excesso de sensações, a persistência das lembranças e das memórias vívidas. Mas há uma dificuldade que Peregrina não esperava: a antiga ocupante de seu corpo se recusa a desistir da posse de sua mente. Peregrina investiga os pensamentos de Melanie com o objetivo de descobrir o paradeiro dos remanescentes da resistência humana. Entretanto, Melanie ocupa a mente de sua invasora com visões do homem que ama: Jared, que continua a viver escondido. Incapaz de se separar dos desejos de seu corpo, Peregrina começa a se sentir intensamente atraída por alguém a quem foi submetida por uma espécie de exposição forçada. Quando os acontecimentos fazem de Melanie e Peregrina improváveis aliadas, elas partem em uma busca incerta e perigosa do homem que ambas amam.

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